Carregar, Conviver

Carregar, Conviver

Já se passou um bom tempo desde aquele dia. Mas, por mais que o tempo corra, ele ainda não saiu da minha cabeça. Nem por um segundo. E, sendo sincera, seria absurdo se saísse. Que tipo de pessoa faz o que eu fiz e simplesmente deita a cabeça no travesseiro como se nada tivesse acontecido, fecha os olhos e adormece em paz?

Não sou essa pessoa. Nunca fui.

Eu sei, racionalmente eu sei, que ficar remoendo ou me martirizando agora não muda nada. O que foi feito está feito. Não dá pra desfazer, não dá pra voltar atrás, e muito menos fingir que nada aconteceu. E se existe uma coisa que entendi com essa escolha que fiz, é que não existe mais espaço pra rendição.

E, sendo sincera com você, filha? Depois daquilo, não sei se procuro alguma.

Olha pra mim agora.

Aposto que, se você estivesse me vendo nesse exato momento, me diria alguma coisa bem do seu jeito. Algo entre o desprezo e a frustração. Um "vai se foder" atravessando meu rosto sem hesitar — cortante e merecido. E sabe de uma coisa? Eu aceitaria. De cabeça baixa. Porque você teria toda razão.

Eu te abandonei quando você mais precisava. E agora, me transformei numa... bem, tecnicamente, numa assassina.

Se antes eu já te decepcionei com a minha ausência, agora sei que a próxima decepção será ainda mais brutal, quando você souber a verdade. Quando eles souberem. E eu? Eu estarei aqui, lidando com o peso disso tudo. Tentando manter a cabeça erguida num mundo que eu mesma sacudi com as próprias mãos.

É quase impossível escrever isso agora, com os olhos marejados e a garganta travada por lágrimas que se recusam a cair em silêncio. Que ironia cruel: fui fria o suficiente pra tirar a vida de alguém sem piscar, e agora me desmancho só de imaginar você me olhando com aqueles olhos, olhos que sempre me atravessaram como flechas, mesmo quando você não dizia uma palavra. Lágrimas que preciso esconder para não chamar atenção aqui, no meio dessa praça onde estou tentando, inutilmente, respirar.

E como se o universo ainda quisesse me testar, adivinha? Você também estava aqui. Eu cheguei no exato instante em que você se levantava para ir embora. Não tive nem um segundo pra te ver direito, nem uma fração de tempo pra me alimentar um pouco da luz que você sempre me trouxe, mesmo sem saber. Um segundo seu teria bastado pra que, por instantes, eu esquecesse o monstro que me tornei.

Mas não. Eu perdi até isso agora.

No fim das contas, filha, eu só adicionei mais lenha na fogueira onde minha mente insiste em me queimar viva. Só que agora... o fogo tem um motivo ainda pior.

Tudo tem sido difícil.

Difícil de carregar, difícil de engolir, difícil de viver.

Tem sido um fardo imenso conviver com o que fiz, com quem me tornei.

Assumir identidades falsas, evitar qualquer rastro, desaparecer de tudo e de todos... Tudo isso só pra evitar que, um dia, você cruze meu caminho e precise olhar nos olhos da decepção que te pariu. A vergonha que não tive coragem de deixar você ver. A pessoa que não queria ser, mas que, no fim, me tornei.

E, o mais cruel de tudo, é aceitar que talvez esse seja, de fato, meu novo "eu". Um eu que sobrevive nas sombras, que se esconde até de si mesma.

Mas veja bem... foi por você.

Eu tornei minha vida mais difícil pra tentar manter a sua mais leve.

Mas tá tudo bem, não é sua culpa. Nunca foi. Eu escolhi esse caminho. Escolhi porque não conseguiria suportar te machucar de novo. Então tudo bem, eu aguento.

Eu aprendi a viver nessa ilusão, ou pelo menos a caminhar dentro dela. Às vezes, ela até parece um consolo, mesmo sendo fria e vazia.

Talvez, de algum modo torto e triste, isso tenha te salvado de algo. Talvez eu tenha te afastado de um perigo real. Ou talvez essa seja só mais uma mentira que conto pra mim mesma, pra continuar andando.

Mas se for verdade, se essa dor me serve como escudo pra te proteger, então tudo bem. Mesmo longe de você, mesmo invisível, talvez ainda exista um jeito de te amar.

E isso... eu consigo aceitar.

Aceito o sangue.

Aceito a dor.

Aceito o que precisei me tornar para proteger quem eu amo.


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